junho 26, 2009 @ 15:37
Acidente
Sou lançado à 150 metros. Com meu rosto colado no granulado do asfalto, enfim conheço a sensação de ser atropelado por um carro à 90KM. No chão, vai-se tudo. Não importa o estado de seus sapatos ou seu próprio estado.
Aqui com a cara no piche, tenha a impressão que a cidade desacelera, as pessoas ficam devagar ao meu redor e os carros também, como se quisessem descobrir minha identidade ou saber se é alguém conhecido.
Me sinto importante com meu feito. Consegui parar os dois sentidos da Av. Ibirapuera atrasando centenas de vidas que passariam por este cruzamento em plena manhã.
Mas a sensação é passageira, logo lembro que não porto documentos e que simplesmente sou um corpo largado naquele chão, sem identificação e que muitas pessoas podem estar praguejando contra mim neste momento.
Em fração de segundos sou socorrido e levado ao hospital mais próximo da região. Penso em o que meus familiares pensarão e sentirão ao receberem a notícia (se receberem).
Mas não passo de mais um entre os cerca de 80 paulistanos que são atropelados diariamente nas ruas da metrópole.
Todavia, fui o único que escolheu uma terça-feira às 8:13 para me atirar na frente de um carro, me sinto tão especial…como no romance de Clarice Lispector.
Filed under Mundo Permalink · No Comments »